Foram então os tres, Ruth adeante, com o seu modo distrahido, de queixo erguido e passos firmes; Camilla ao lado do medico, atravéz as ruas quasi desertas, de domingo. Ao principio nada se disseram. Camilla adivinhava tempestade proxima, sem lhe atinar com a causa. Extranhara as phrases do Gervasio á mesa; sentia ainda a dôr dos remoques que elle lhe atirara disfarçadamente. Faltava-lhe coragem para uma pergunta; mais por submissão do que por indolencia, ella esperava sempre que elle fôsse o primeiro a fallar e a agir, naquella torturante passividade de escrava, a que o seu amor a lançara.
Elle fallou. Disse ter surprehendido a doçura de um amor nascente; que não se espantava da victoria do Rino. Achava que se devia despedir; que a via bem entregue...
Camilla comprehendeu tudo, de relance; as lagrimas subiram-lhe aos olhos, sem que ella pudesse responder á brutalidade da offensa. O rosto tingiu-se-lhe de vermelho, numa onda de vergonha que a suffocava; vendo-a calada, elle insistiu baixinho, teimosamente, irritantemente, espaçando as palavras, extravasando todo o ciume contido durante as horas de bordo.
Ella murmurou então, vexada, por entre dentes:
—Eu não gosto do Rino ... eu não gosto...
E para que fallar assim, na rua? É uma imprudencia...
—Não tive tempo de escolher logar. Isso é bom para os calmos. Depois, vendo-me ameaçado de abandono, apresso-me em despedir-me. Isto tinha de ser já.
—Como os homens são orgulhosos e injustos!
—Serão. E as mulheres? voluveis!
—Quasi sempre a mulher ainda ama e já é considerada pelo homem como uma importuna!... Está ahi a nossa volubilidade...