Calaram-se; passava gente. Depois de uma longa pausa, foi ella quem disse primeiro:

—Que me importa a mim o Rino! estou prompta a desfeiteal-o, se com isso...

O medico interrompeu-a baixo, mas com vivacidade:

—Agora sou eu que lhe lembro que estamos na rua...

Ruth, sempre adeantada no caminho e sempre distrahida, não percebia nada; os dois seguiam-na automaticamente. Foi ella que, de repente, vendo uma confeitaria ainda aberta, se lembrou de levar doces á Nina e ás creanças, e parou á porta, á espera do medico e da mãe. No momento em que elles chegavam, saiu da confeitaria uma mulher ainda moça, toda de lucto.

Ao vel-a, o medico recuou bruscamente e ella, mal o viu, corou até a raiz dos cabellos e vacillou tambem. O choque foi rude e rapido. Elle ficou firme na calçada, muito pallido, com contracções nas faces, e ella passou séria, numa rigidez contrafeita e torturada.

Camilla sentiu roçar pelo seu vestido claro o vestido de lã da outra; aspirou com força o seu aroma violento de uma essencia desconhecida; viu-lhe a alvura da pelle avelludada entre a golla de crepe e a parte da face onde terminava o véozinho do chapéo; apanhou, naquelle gesto de surpresa de ambos, um mysterio qualquer, uma traição, uma infidelidade, uma ignominiosa mentira á sinceridade da sua paixão.

—Quem é? ... quem é?! Perguntou ella com avidez phrenetica, puxando imprudentemente pela manga do medico.

O Dr. Gervasio, ainda no mesmo logar, olhava para a mulher de lucto que seguia numa pressa de quem foge; á voz de Camilla, voltou-se atarantado, sorriu com esforço evidente e depois, baixo, muito baixo, mas com modo sacudido e nervoso, disse:

—Não faças caso: uma mulher que amei e que morreu.