—Então como vae isso, Seu Theodoro, han?
—Bem... Muito trabalho.
—É o que se quer. Eu tambem não paro. Mas quer saber quem vae mesmo de vento em pôpa? O Innocencio; O ladrão tem mão certeira; não erra o tiro! Vi-o hoje fazer grandes transacções com a maior fleugma. O dinheiro não lhe escalda as mãos. Elle vem ahi; deixei-o lá embaixo a conversar com um sujeito. É um finorio de marca.
—É experto, é.
Minutos depois o Innocencio Braga entrou, trefego e alegre, em companhia do Negreiros, que subira para tratar de um negocio, e, emquanto este se entretinha com Theodoro, o Innocencio dizia, voltando-se para o Lemos:
—Hoje é para mim um dos dias mais felizes da minha vida! Imagine que recebi carta do meu procurador, dizendo já ser minha uma quinta lá da minha aldeia, e que eu ambicionava desde rapazinho...
—Terras de trigo?
—Não é por isso. A propriedade só dará despezas. Comprei-a por vingança. O dono era um fidalgo d'esses velhos, de raros exemplares. Por uma questão estupida maltratou meu pae. Eu era pequeno, mas não me esqueci da offensa. Os dias passaram; o fidalgo arruinou-se, e o filho do meu velho ganhou o bastante para fazel-o assignar, ainda que de cruz, as escripturas que lhe dão direito á posse da sua quinta. Meu pae já se installou no palacio; o diacho é que, pelos modos, elle não se acostuma á ociosidade e vae para o campo mondar o linho com os empregados ... não faz mal, é o dono.
—Realmente, foi um acto de amor filial, muito digno ... murmurou o Lemos, assoando-se com estrondo.
Isidoro entrou com o café e a conversa generalisou-se.