—Qual! isso não! Conheci-o caixeiro, alli do Leite Bastos. Foi sempre um atirado; ahi está a prova: fez um casão de um dia para o outro. Dou razão ao Innocencio; aquelle está talhado para ser o nosso Rottschild...

—Vejam lá, rosnou o Lemos com a papada tremula e um brilho de cobiça nos olhinhos pardos, eu quiz fazer o mesmo negocio e lá o meu socio é medroso e: tá, tá, tá, é melhor esperar... Está ahi!

—Fez bem, foi prudente! Deixem lá fallar o Innocencio. Senhores, o commercio do Rio de Janeiro é honesto e não se tem dado mal com o seu systema, observou Theodoro.

—Sim, o Innocencio aprecia isto de fóra, por isso diz o contrario. Chama o commercio do Rio de Janeiro de ignorante e de porco.

—Porco?! bradaram os outros, indignados.

—Porco, confirmou o Ramos com solemnidade.

—Tudo mais acceito, o porco é que não engulo, observou do seu canto o Lemos, o anafado.

Ramos sentiu saltar-lhe na lingua esta resposta: «porque os animaes da mesma especie não se devoram entre si»; mas por consideração ao amigo calou-se. Elle confessava-se seduzido pelas exposições do Innocencio. Que talento!

—Mas, afinal de contas, que quer o Innocencio?! perguntou Theodoro de pé, cruzando os braços sobre o fustão alvo do collete.

—Queria ... pensava encontrar aqui uma praça mais desenvolvida, maiores transacções, casas de mais vulto. Diz que não temos sabido aproveitar as aragens. Que só trabalhamos com o corpo. Não o ouviu?