—Com que diabo quereria elle que trabalhassemos?
—Com a intelligencia. Está claro. E elle explicou a cousa bem. O nosso commercio é formado por gente sem escola, vinda de arraiaes... Eu por mim, confesso, mal tive uns mezes magros de collegio! Apanhei muito e não aprendi nada.
Houve um curto silencio, em que passou pelos olhos de todos a saudosa visão de uma escola rudimentar, em um recanto placido de aldeia.
Depois de um suspiro, Theodoro concluiu:
—Que venham para cá os doutores com theorias e modernismos, e veremos o tombo que isto leva!
Entreolharam-se. A verdade é que tinham todos elles um soberano desprezo pelas classes intellectuaes. D'ahi um sorrisinho de expressiva intenção.
Mais um pouco de palestra sobre cambio, transacções da bolsa e assumptos lidos no Jornal do Commercio do dia encheram um quarto de hora, que passou depressa. Por fim sahiram, fallando alto, dizendo que aquella casa cheirava a dinheiro.
Francisco Theodoro foi dar o seu gyro pelo armazem. Vendo-o em baixo, Joaquim acudiu logo, limpando com a lingua o bigode molhado de café, a dar informações.
—Estamos esperando o café do Simas.
O caminhão já está ahi perto, mas ficou entalado entre os carroções do Gama Torres. Tem sido um despropósito o café que aquelle armazem tem engulido.