—Já sei d'isso ... bem. Mandou as contas para cima?
O outro disfarçou um movimento de enfado e mal respondeu:—sim, senhor; depois gritou para o fundo:
—Seu Ribas!
O Ribas cruzou-se com Francisco Theodoro, que seguiu até á área, a ver ensaccar o café.
A gente do armazem tinha quisilia á do escriptorio: fazia valer os seus serviços, deprimindo os alheios. Seu Joaquim considerava-se o melhor empregado da casa e gostava de mostrar as suas exigencias. Os caixeiros temiam-n'o; mas o pessoal de cima tratava-o com certa sobranceria, que elle não perdoava.
O velho Motta, ajudante de guarda-livros, ainda era o unico que lhe dispensava amabilidades e cortezias; mas, mesmo nisso, seu Joaquim lia uma adulação. Com certeza o velho só pensava em impingir-lhe a filha, que mirrava os seus trinta annos em um sobradinho da rua Funda.
Francisco Theodoro demorou-se um bocado na area vendo ensaccar. Passou-lhe pela lembrança o tempo dos escravos, quando esse trabalho era exclusivamente feito pelos negros de nação, com a sua cantilena triste, de africanos. Era mais bonito.
As pás iam e vinham cantando, num compasso bem rythmado, sempre seguido da voz: eh, eh! eh, eh! E agora mal se via um preto nesse serviço! E ainda acham que as cousas se alteram de vagar!
Rolavam pelo chão grãos de café, como contas de cimento, e na atmosphera carregada mal se podia respirar. Francisco Theodoro voltou. O caminhão estava já á porta e os carregadores andavam nas suas corridas afanosas. Ia subir, quando foi abordado por um dono de trapiche, o Neves, que, vendo-o da rua, entrou para lhe pedir a freguezia, accrescentando para o estimular:
—Agora mesmo venho alli do seu visinho, o Gama Torres, que me tem mandado lá para o trapiche um numero assombroso de saccas!