O movimento do armazem interrompia-os de instante a instante. Francisco Theodoro, mal respondia, com as idéas desviadas para outro sentido.

Pensava no Gama Torres, de quem toda a gente lhe fallava com elogio e pasmo. Aquelle está destinado a ser o primeiro homem da praça, dissera-lhe o Innocencio, e o Innocencio era homem de bom faro e de exito seguro em todas as suas previsões... Mas esse papel, de financeiro e negociante forte entre os mais fortes, fôra o ideal de toda a sua longa vida de trabalhos, de sujeições e de amarguras! Seria justo que o outro, de um pulo, erigisse edificio mais alto e glorioso do que o seu, cimentado com lagrimas, com sacrificios, com tantos annos de esforço e de labor?

Francisco Theodoro despediu-se do Neves sem o animar, apertando-lhe a mão frouxamente, e subiu para o escriptorio. Na escada encontrou o mulato, o Isidoro, com uma vassoura na mão.

—Cuidado!... não me tirem as teias de aranha do armazem...

—Não, senhor! Eu bem sei que aquillo dá felicidade...

Francisco Theodoro deteve-se um momento no escriptorio e entrou depois para o seu gabinete.

Fóra, o sol avermelhava as fachadas feias e deseguaes das casas fronteiras. Velhas paredes repintadas, outras com falhas de caliça, guardavam os seus segredos e as suas fortunas. Um halito ardente de verão bafejava toda a rua febril.

Os armazens, pelas boccas negras das suas portas escancaradas, vomitavam ainda saccas e saccas de café, que as locomotoras e as carroças levavam com fragor de rodas e cascalhar de ferragens para os lados da Prainha e da Saúde, levantando do solo esmagado camadas de pó que espalhavam no ar scintillações de ouro.

[II]

Em caminho de casa, Francisco Theodoro, recostado em um bond, persistia em querer ler um jornal da tarde, sentindo que as idéas lhe fugiam para um curso perigoso.