O exito do Torres quisilava-o. Parecia-lhe que o outro lhe taparia o caminho, impedindo-o de chegar ao seu ultimo ponto de mira. Galgava-lhe de assalto a deanteira, para se quedar sempre na sua frente, como um obstaculo.

Aquella conquista de fortuna, feita de relance, perturbava-o, desmerecia o brilho das suas riquezas, ajuntadas dia a dia na canceira do trabalho. A vida tem ironias: teria elle sido um tolo?

Talvez, e para se certificar reviu a sua vida no Rio, desde simples caixeiro, quasi analphabeto, com a cabeça raspada, a jaqueta russa e os sapatões barulhentos.

Tinha ainda fresco na memoria o dia do desembarque—estava um calor!—e de como depois rolara aos ponta-pés, mal vestido, mal alimentado, com saudades da brôa negra, das sovas da mãe e das caçadas aos grillos pelas charnecas do seu logar.

Pouco a pouco outros grillos cantaram aos seus ouvidos de ambicioso. O som do dinheiro é musica; viera para o ganhar, atirou-se ao seu destino, tolerando todas as oppressões, dobrando-se a todas as exigencias brutaes, numa resignação de cachorro.

Assim correram annos, dormindo em esteiras infectas, molhando de lagrimas o travesseiro sem fronha, até que o seu mealheiro se foi enchendo, enchendo avaramente.

Aquella infancia de degredo era agora o seu triumpho. Vinha de longe a sua paixão pelo dinheiro; levado por ella, não conhecêra outra na mocidade. Todo o seu tempo, toda a sua vida tinham sido consagrados ao negocio. O negocio era o seu sonho de noite, a sua esperança de dia, o ideal a que atirava a sua alma de adolescente e de moço.

Não podia explicar, como, só pelo attrito com pessoas mais cultivadas, elle fôra perdendo, aos poucos, a grossa ignorancia de que viera adornado. A letra desenvolveu-se-lhe, tornou-se firme, e a sua tendencia para contas fez prodigios, aguçada com o sentido na verificação de lucros. Relendo cifras, escrevendo cartas, formulando projectos, e observando attentamente o seu trabalho e o alheio, tornara-se um negociante conhecedor do que tinha sob as mãos, e um homem limpo, a quem a sociedade recebia bem.

Não pudera ser menino, não soubera ser moço, dera-se todo á deusa da fortuna, sem perceber que lhe sacrificava a melhor parte da vida. Para elle, o Brasil era o balcão, era o armazem atulhado, onde o esforço de cada individuo tem o seu premio.

Fóra do commercio não havia nada que lhe merecesse o desvio de um olhar...