Tempos de amargura e de esperança, aquelles!

Relembrando o passado, Francisco Theodoro procurava em si mesmo elementos com que pudesse bater influencias e oppôr-se ás especulações de afogadilho; devia encontral-os espalhados pelos dias asperos da incerteza e os macios da prosperidade.

Esta rectrospecção agradou-lhe; fixou varios periodos.

O tempo em que morara em um sobradinho do becco de Bragança, sombreado pelo beiral muito extendido do telhado coberto de ervagem e pela sacada de rotula de um verde sujo.

Embaixo e defronte, caixoteiros martellavam em taboas de pinho, cujo cheiro dava ao becco immundo uma baforada fresca de floresta. E as martelladas que lhe importavam, se poucas horas estava em casa! De dia o trabalho; de noite o theatro ou a casa da Sidonia. Que seria feito da Sidonia? Devia estar p'r'ahi, em qualquer canto ... e velha.

Aos domingos na chacara do Mattos, o solo, os jantares á portugueza, e a hospitalidade paciente da boa D. Vica... Tudo lhe gyrava na memoria, suavemente, suavemente.

Fôra no conforto d'aquella chacara, vendo-se cercado de considerações, ao lado do amigo repousado e feliz, que elle sentiu a sua importancia e se lembrou que deveria haver na terra outras delicias; mas o seu coração, cançado de um lucta formidavel, negava-lhe novas inclinações. A patria esquecida não lhe acenava com o minimo encanto: a mãe morrera, a sua unica irmã tinha-se recolhido a um convento. Fechara-se uma porta sobre a sua meninice.

Sentia-se só; começava a cançar-se e a enjoar as mulheres faceis, com quem convivia em relações momentaneas. Mesmo a Sidonia enervava-o com os seus arrufos ... e as suas denguices.

Atirou-se a proteger as instituições do seu paiz, a andar com medalhões e a fazer mordomias na Beneficencia. No fundo, não era só a distracção que elle buscava, nem a caridade que elle exercia; uma outra causa lhe filtrava n'alma aquella vocação para o beneficio...

E a commenda chegou.