Foi só depois de commendador que Theodoro se sentiu vexado d'aquella habitação e se mudou para um segundo andar da rua da Candelaria, que mobilou a vinhatico, com exuberancia de chromos pelas paredes. Achou, ainda assim, que á sua casa alegre faltava qualquer cousa...
Viera-lhe a dyspepsia. Que insomnias!
Um medico, consultado, aconselhara-lhe uma viagem á terra ou o casamento, para a regularisação de habitos. Elle achara cedo para a viagem: solidificaria primeiro a fortuna. A idéa do casamento parecia-lhe mais salvadora.
Para que lhe serviria o que juntara, se o não compartilhasse com uma esposa dedicada e meia duzia de filhos que lhe herdassem virtudes e haveres?
No seu sonho começou a esboçar-se a idéa de um herdeiro. Teria um rapaz, que usasse o seu nome, seguisse as suas tradições e fosse, sobretudo, um continuador d'aquella casa da rua de S. Bento, que engrandeceria com o seu prestigio, a sua mocidade, bem assente no apoio e na experiencia paterna. O filho seria a sua estatua viva, nelle reviveria, mais perfeito e melhor. Esse ao menos teria infancia, seria instruido.
E tanto aquella idéa o perseguia, que num domingo de solo abriu-se ao Mattos, que acolheu com ar solemne e discreto as confidencias do amigo.
Lembrava-se muito bem da cara com que o outro lhe respondera:
—Sei o que você quer. Tivemos aqui na visinhança uma familia que está mesmo ao pintar... Gente pobre, mas de educação. A filha mais velha é a que lhe convém. Bonita e grave. Muito digna.
Francisco Theodoro murmurou:
—Pois uma mulher assim é que me servia.