—Capitão Rino, porque não nos traz nunca sua irmã? perguntou-lhe Ruth.
Com toda a calma, como se nenhum desgosto o abalasse, elle respondeu:
—Catharina é uma exquisita; ella sae todos os dias, mas para andar lá pelo morro colhendo plantas... Raras vezes vae á cidade ou faz visitas. Somos uns insociaveis, nós dois. Meu pae era maritimo, minha madrasta foi sempre muito doente, e está nisso, julgo eu, a origem do nosso mal ... ou do nosso bem, quem nos dirá?
Fazendo uma carinha comica, e apontando para o céu, Ruth respondeu com ar solemne:—Só Deus!
[XI]
Era a hora do café no armazem de Francisco Theodoro. O escriptorio estava cheio; o Innocencio, miudo e trefego, retorcendo com mão nervosa o bigodinho aloirado, com os olhos pequenos fulgurando-lhe no rosto pallido, dilatava as narinas, cheirando dinheiro, que lhe parecia andar esparso no ambiente de todo aquelle enorme casarão de S. Bento.
Percebia as coisas de relance, e apanhava no ar as que lhe convinham.
A seu lado o velho João Ferreira, espadaúdo trigueirão, largo de faces e de gestos, commentava com benevolencia os actos do governo, berrando ás vezes contra a opinião dos outros, que o atacavam por todos os lados em vivas represalias.
O Lemos sorria calado, muito estupido para entrar em questões de tal ordem. Que lhe fallassem do preço da carne secca, que importava em grosso, e dos jacás de toicinho, e a sua opinião figuraria logo com todo o peso da autoridade. O Negreiros em pé, com o seu enorme nariz de cavallete, que a mão distrahida acariciava de vez em quando, era o unico republicano naquelle ninho de velhos portuguezes afferrados ás instituições tradicionaes da sua patria e d'esta que o seu amor e o seu bem-estar escolheram.
João Ferreira desculpava a fraqueza dos homens; palrador, como todo o minhoto, discursava por gosto, abafando com o seu vozeirão as ironias do Innocencio, um ou outro aparte medroso do Lemos, e os protestos de Francisco Theodoro, que não comprehendia como um tão fiel monarchista pudesse achar desculpas para os desatinos d'esta «Republica de ingratos.»