E era só em negocio que Francisco Theodoro fazia caso do dinheiro. No mesmo dia em que assignava vinte ou trinta contos para um hospital ou uma egreja, numa pennada rija e franca, recusava emprestar a qualquer pobre diabo cinco ou dez contos para um começo de vida.
O seu dinheiro, adquirido com esforço, gostava de mostrar-se em borbotões sonoros, que lampejassem aos olhos de toda a gente.
Queria tudo á larga. Era uma casa a sua em que as roupas, as comidas e as bebidas atafulhavam os armarios e a despensa até a brutalidade. Dizia-se que no palacete Theodoro os cozinheiros enriqueciam e que a vigilancia trabalhosa da Nina não conseguia attenuar a impetuosidade do desperdicio. As proprias dividas do Mario faziam vociferar o negociante, não pelo consumo do dinheiro, mas por a perdição d'aquelle filho, que elle não conseguia dirigir a seu modo.
Gastar comsigo, com a sua gente, era sempre um motivo de vaidade e de goso; mas gastar mal em negocio, arriscar em commercio problematico, é que lhe parecia uma ignominia.
Agora, com este Innocencio Braga, as coisas mudavam. A superioridade do homem obrigava-o a transigir um pouco...
Por isso elle fez entrar o Innocencio para o escriptorio, onde mal chegava o echo das correrias das pequenas.
Sem preambulos, o outro atacou o assumpto com a altivez de quem não pede, mas offerece favores.
Com o seu timbre de voz nazalada como se toda ella só lhe sahisse da cabeça, começou:
—Lembrei-me de organizarmos aqui no Rio um grande syndicato de café. O Gama Torres, que, aqui entre nós, deve aos meus conselhos a sua prosperidade, está prompto a entrar com grande parte do capital. Foi elle que me disse que o consultasse tambem.
Francisco Theodoro sentiu um arrepio, mas não pestanejou. Os olhos do Braga scintillavam na sombra.