Com elogios moderados, mas de infallivel alcance, á argucia e bom criterio do negociante, Innocencio expoz o seu plano, estudando-o, revirando-o por todos os lados, mostrando calculos, em cuja elaboração perdêra noites de somno, assoprando-o de vagar, com eloquencia, fortificando-o com argumentos persuasivos.

Tudo aquillo apparecia como a irrefragavel verdade, singelamente. Nenhum artificio de palavras. Termos limpidos como agua da fonte.

Francisco Theodoro, empolgado, reclamava repetições. Innocencio prestava-se.

Todos os pontos obscuros eram esclarecidos, repetidos, como os compassos difficeis de uma musica, até que se passasse por elles sem tropeço. O tino commercial do Innocencio Braga confirmava-se.

Entretanto, Francisco Theodoro hesitava. A sua escola fôra outra, mais rude.

O assalto assustava-o.

Sentindo-o escorregar medrosamente d'entre os seus dedos nervosos, Innocencio sorria e, com habilidade, sem querer constranger resoluções, retomava o fio d'ouro da sua proposta, e extendia-a seductoramente.

Não havia zona caféeira, em Africa, na America ou na Asia, de que elle não fallasse com a autoridade de bom conhecedor.

Dir-se-ia que podia contar os grãos de cada arvore. Em algumas colonias o sol mirrava o fructo; noutras, chuvaradas tinham levado colheitas; em certos paizes de café, o café faltava, e só no Brasil, terra da promissão, os cafesaes vergavam ao peso da cereja rubra. Tudo isto era documentado com trechos de jornaes extrangeiros, collados num caderno, annotado nas margens, com lettra miuda.

Em toda a exposição não havia calculo sem base, idéas sem argumentos. Tudo era saber aproveitar a occasião propicia, esta incomparavel epocha de negocios, para lançar a rêde...