Pouco depois, como estivesse escuro, Sancha trouxe um lampeão de kerozene com um fetido horrivel. D. Itelvina sahiu da alcova, atravessou a sala, e sumiu-se na guella negra do corredor.
Ruth sentia-se mal naquelle canapé alto, de assento afundado. Foi á janella, voltou; a tia rezava; quando a viu persignar-se, pediu-lhe historias de santos e sentou-se a seu lado. Tia Joanna não se fez de rogada.
As mesmas palavras que na alegria da sua casa risonha lhe enfeitiçavam a imaginação, arrepiavam agora Ruth, naquella meia sombra, num ambiente tão diverso do que lhe era habitual.
Os cilicios, as caldeiras fumegantes, as fragoas accesas do inferno, a nudez das virgens martyres, as cruzadas para a Terra Santa, lanças flechando o ar abrasado, exercitos comidos pela peste ou esmagando judeus, os grandes votos solemnes, os ritos crueis, as perseguições injustas, os gritos de misericordia, todas as agonias e todos os extasis, que a velha relatava, para a victoria da Fé christã, assombravam Ruth, que toda se cosia á tia, olhando desconfiada para a vastidão sombria do aposento mudo.
Na parede do fundo, o bruxolear da luz fraca parecia desenhar formas indecisas de animaes phantasticos; seriam talvez os porcos babosos das lendas satanicas, os dragões flammiferos, ou os magros cães de focinho erguido a uivar...
—Tia Joanna, tia Joanna!
—Que é isso, minha filha?!
—Eu estou com medo ... conte outra historia mais suave...
—Não se espante, menina! São as grandes dores, o sangue e a morte que ensinam a Fé. Quem não soffre não comprehende o céo, Ruth! Ainda hontem monsenhor Cordeiro disse estas palavras verdadeiras.
—Mas, o céo assim é feio, tia Joanna...