—Cale a bocca!... espere ... quero vêr se me lembro de uma lenda muito antiga, que já tem corrido mundo, mas que é bem verdadeira e bem simples.

—Em que não haja nem fogueiras nem sangue; sim?

—Nem sangue, nem fogueiras:—Foi um dia...

[XIV]

«Foi um dia uma freira pallida, muito moça, muito linda, temente a Deus e devotada á Virgem. Vivia na Normandia, em um convento velho, de rigidas penitencias, isolado em cima de um rochedo.

Da frecha gradeada da sua cella, a freira só via: em baixo, a pedraria negra, e além charnecas brancacentas a perder de vista.

Uma tristeza.

No claustro, para onde deitava a sua cella, mesmo no angulo perto da portaria, havia uma imagem de marmore representando Nossa Senhora, tão doce, tão humana, que mais parecia creatura viva. Sempre que soror Pallida deslisava pelo claustro, fazia á Virgem uma reverencia profunda e murmurava:

—Ave!

E a Virgem sorria-lhe, dentro do seu nicho azul.