Uma noite, soror Pallida, depois de rezar o Bemdicto, desabotoava o seu habito branco para dormir um somninho innocente, quando lhe pareceu ouvir o seu nome na janellinha. «Ha de ser o vento...» pensou ella, tirando a cruz e o véu.

Não era o vento; a mesma voz, mais distincta agora, repetiu-lhe o nome. Soror Pallida quiz resistir, com medo, mas nunca o seu nome lhe parecera tão doce, nem tão suspirado; assim, levada por curiosidade, ou não sei porquê, foi-se approximando, foi-se approximando...

Tão depressa chegou, Jesus! que havia de vêr?

Suspenso nos varões de ferro, o capellão do convento olhava para ella, com dois olhos que nem duas estrellas.

—Senhor capellão, porque estaes ahi? perguntou ella afflicta, pondo as mãos tremulas.

—Senhora freira, porque vos amo! respondeu-lhe elle.

E logo de mil modos começou a tental-a.

Taes coisas disse, taes coisas fez, que a pobre o escutava embevecida. Chamou-a linda, meiga, angelica, e por fim (vê a perfidia!) pediu-lhe que o beijasse, que o beijasse na bocca ou que elle se despenharia no abysmo...

A freira debatia-se: que não!... mas, para não o vêr morrer despedaçado no rochedo, vá lá, condescendeu em beijal-o. Louca! que fizeste? foi a tua perdição! Elle sumiu-se, e ella ficou de joelhos, muito tremula, muito alvoroçada.

Em vão coseu cilicios ás suas carnes, em vão se rojou pedindo a Deus que lhe apagasse da memoria aquelle peccado doce e horrendo; em vão! O beijo alli estava sempre nos seus labios, sentia-o quente, perfumado, embriagador.