Soror Pallida já não era a mesma; perdia o sentido das rezas, tinha deliquios, abstracções.
O moço capellão voltou, mais uma noite, mais outra, induzindo-a a que fugisse: iriam viver bem longe, numa casinha branca, entre pomares cheirosos e aguas crystallinas.
Ella recuava, com temor de tamanho crime; mas elle extendia-lhe os labios e convencia-a de que o amor vale mais que o céo, mais que a perpetua bemaventurança, mais que tudo!
E tornava a supplicar-lhe que fugisse: elle a esperaria juncto á portaria, com os cavallos promptos, mais rapidos que o vento.
Sabe-se como essas coisas são: máo é dar-se ouvidos a primeira vez. A freira já não pensava senão em varar aquellas charnecas longuissimas ao galope de um cavallo ardego, sentindo palpitar o coração do seu cavalleiro enamorado. Mas, sempre que, altas horas da noite, subtil e tremula, deslisava para a portaria com a tenção de fugir, esbarrava com a Virgem, fazia-lhe a sua reverencia profunda, murmurando contrictamente:—Ave!—e passava; mas, oh! surpreza! a grande porta do convento desapparecera, e na portaria, como em todo o claustro, só havia grossas paredes impenetraveis.
Soror Pallida voltava attonita, e a Virgem sorria-lhe do seu nicho azul.
Por serem sempre as flores presentes de namorados, o moço capellão levava todas as noites rosas á sua eleita. No outro dia toda a communidade entoava:
—Milagre! milagre! a Irmã da Virgem recebe rosas do céo. Os anjos trazem-lhe flores do Paraiso, como a Santa Dorothéa!
Assim acreditavam, visto que só cardos e espinheiros bravos nasciam em redor, por aquellas penedias.
E entoavam hymnos.