—Uma peccadora arrependida, para a penitencia—sussurrou soror Pallida, lavada em pranto. E confessou logo alli os seus desatinos...
A porta abriu-se sem fazer barulho: dir-se-ia que os grossos gonzos enferrujados estavam de velludo,—e a rodeira mostrou se com um sorriso á freira apoquentada.
Oh! aquelle sorriso, bem o conheceu a religiosa que, vergando os joelhos, na profunda reverencia antiga, murmurou com immensa compuncção e infinita doçura:
—Ave!
A Irmã rodeira era a Virgem Maria, que, desde a noite da fuga, tomara a fórma da freira e cumpria todos os deveres da regra que lhe competiam: badalando os sinos, varrendo os claustros, accendendo as velas dos altares e arrumando os gavetões da sacristia.
—Toma o teu habito, disse-lhe Nossa Senhora, e vae para a tua cella... Descança, que ninguem soube do teu opprobrio, ninguem!...
Soror Pallida prostrou-se e uniu humildemente a face á lage fria; depois, erguendo o rosto inundado de lagrimas, perguntou soluçando:
—E Vós, Mãe Santissima?!
—Eu? Perdoo, respondeu-lhe a Virgem sorrindo, já dentro do seu nicho azul...»
Eram nove horas; Sancha veio chamar para a ceia, e levou para a mesa o lampeão fumarento. D. Itelvina só usava mate, que sempre era de maior economia. Sentaram-se. Ruth mal enguliu a sua chicara. Pensava em soror Pallida.