E um véu de tristeza passou pelos olhos, ha pouco risonhos, de Milla.

Mas nada houve nessa tarde que entretivesse Francisco Theodoro; elle repellia a companhia de toda a gente para ir passear sózinho lá para o fundo da chacara. Ruth tocou em vão as suas melhores musicas: o pae nem parecia ouvil-as...

Na sala de engommar, a Noca commentava a tristeza do patrão, como um facto annunciado pelo desastre do espelho... «A coisa está começando... Eu não dizia?»

Á noite, emquanto Francisco Theodoro folheava embaixo a papelada do Innocencio Braga, Milla despia-se em frente do seu psyché, namorando a propria imagem, milagre da juventude, sentindo em um fremito a delicia de bem merecer um grande amor.

Como a Sulamita, toda ella era formosa. O peito farto, o pescoço alvo e redondo, as mãos pequenas, os pulsos delicados, e uns olhos negros e pestanudos, de onde jorrava uma luz velludosa e doce que toda a vestia de graça.

Ao prender o cabello, lembrou-se de uma comparação de Gervasio; elle dissera uma vez, ao vêl-a pentear-se, que as suas mãos eram como duas aves luminosas esvoaçando na treva. Milla sorriu.

Foi só depois das orações, ao espreguiçar-se no seu largo leito, que se lembrou ter de levantar-se cedo no dia seguinte para ir a bordo despedir-se do filho.

Tudo era como um sonho. O Mario já casado! Parecia-lhe que ainda o estava a vêr pequenino e gorducho, engatinhando pela casa, aquelle sobrado da rua da Candelaria, onde a sua vida fôra tão differente. E foi com a visão d'aquelle filho em creança, d'aquella carne de rosas, d'aquella bocca innocente que a babava de beijos, que ella adormeceu, sentindo-lhe o peso amado do corpo nos braços saudosos.

Quando sôou meia-noite, em toda a casa só havia de pé Francisco Theodoro, que folheava ainda no escriptorio a papelada do Innocencio Braga.

Nessa manhã elle tivera o primeiro toque de alarma, num telegramma do Havre para o Jornal, que affirmava ter descido o preço do café nos principaes mercados.