Camilla tornou-se livida. Houve um longo silencio cortado só pelo zumbir de uma vespa no rezedá da janella. Ella não ouvia a vespa, não ouvia nada.

O seu rosto, que havia pouco reflectia o fulgor das brasas, estava tão desbotado agora, que o medico, inquieto, com receio de uma syncope, amparou-a, dizendo:

—Comprehendo a estupefacção, mas agora, que a verdade está sabida, é preciso coragem... Camilla!

Como ella continuasse immovel, elle abalou-a brandamente, repetindo-lhe o nome: Camilla ... Camilla!... julgava-te mais forte, muito mais forte! Olha para mim. Percebe o sentido das minhas palavras—fallir não é morrer. Teu marido não morreu,—falliu.

—É impossivel! murmurou ella por fim, com uma voz de somnambula.

—Impossivel porque? a quanta gente tem acontecido o mesmo? Vocês mulheres não entendem d'estas coisas. Só conhecem a vida pela superficie, por isso é que teem surprezas com factos naturalissimos. Hoje a fallencia é de Theodoro, amanhã será de outro e depois de outro... A série ha de ser longa.

—Que me importam os outros!

—Importa como explicação: é uma consequencia do tempo. Mas senta-te, estás muito fria ... queres uma capa?

—Não quero nada. E, como elle quizesse retel-a, ella desprendeu-se-lhe bruscamente dos braços.

—Descança...