Ruth subia a escada. Elle foi collar o ouvido á porta para escutar-lhe os passos. Beijaria o logar em que ella punha os pés... Esteve assim longo tempo, depois voltou-se e foi sentar-se a um canto, esperando...

Pouco a pouco a casa adormecia, até que se encheu toda do pesado silencio do somno.

Á uma hora Francisco Theodoro levantou-se muito pallido, persignou-se e rezou, alli mesmo, entre o lampejar das molduras e o ar atrevido do cavalheiro de bronze. Finda a oração, caminhou resolutamente para a sua secretária. A bulha dos seus passos firmes abafou um sussurro leve de saias que deslisavam pela escada abaixo.

Francisco Theodoro tirou da gaveta o seu revólver, olhou-o um instante e encostava-o no ouvido quando a mulher appareceu na porta, muda de terror, extendendo-lhe as mãos. Elle cerrou logo os olhos á tentação da vida e apressou o tiro.

E toda a casa acordou aos gritos de Camilla, que, com os braços no ar, clamava por soccorro.

[XXI]

A morte de Francisco Theodoro fez sensação.

Amigos e conhecidos acudiram pressurosos á casa da familia.

Negreiros levou a carteira cheia, pensando em fazer o enterro; a baroneza da Lage offereceu-se para educar as gemeas. Chamado de madrugada pelo jardineiro, Dr. Gervasio determinara tudo: o enterro seria conforme disposições do finado, a expensas da sua Irmandade.

Toda a familia soluçava á roda do cadaver. Camilla tinha no olhar uma fixidez de loucura. A scena da morte reproduzia-se deante d'ella, como se uma infinita successão de espelhos a reflectisse consecutivamente.