Culpava-se de ter chegado tarde. Esperara o marido em cima por mais de duas horas, cuidosa, com medo que elle fizesse uma loucura, morta por encostar-lhe a cabeça aturdida ao seu peito de mulher enternecida, sentindo que o amava na sua dôr, mais do que o tinha amado na sua felicidade. Entretanto, porque só obedecera ao desejo de o ver e só viera procural-o no momento justo e inevitavel da morte? Se ella tivesse adivinhado! E a sua obrigação não era ter adivinhado? Por que não tinha ella obedecido logo ao primeiro impulso de suspeita?
O descuido do presentimento é uma falta que a consciencia não perdoa. Sentia-o; revolvia-se em um grande remorso. Oh, se tivesse descido uma hora antes! Um minuto antes!
E agora, como caminharia na vida sem aquelle companheiro de tantos annos? Que fariam todos alli, sem elle?
Seus olhos eram duas nascentes de agonia, choravam sem cessar.
No meio de tanta gente, só o Dr. Gervasio a comprehendia. Os outros mal acreditavam na sua sinceridade.
As maiores condolencias voltavam-se para os filhos, e só por etiqueta e dever de apparencia cumprimentavam a viuva.
As Bragas tinham sido as primeiras, como visinhas, a invadir a casa, e tomaram conta d'ella, affectando grandes intimidades, dispondo, ordenando, mostrando aos extranhos a sua interferencia.
D. Ignacia Gomes foi tambem, muito chorosa, pelo braço do seu velho. Repetia a todos que a Judith ficara em casa com ataques; Carlotinha tambem tivera uma syncope. Eram muito amigas... Pudera não!
Era só gente e mais gente a entrar e a sahir, pessoas curiosas da visinhança, que aproveitavam o ensejo para varar os jardins d'aquella casa de luxo, onde nunca tinham entrado; ondas negras de povo, cruzando-se nas portas, escoando-se pelos corredores, num sussurro de passos e de vozes abafadas...
D. Joanna conseguira, pelos seus merecimentos, um padre para a encommendação do suicida. Com o rosario nas mãos tremulas, os olhos inundados, ella não sahia de ao pé do cadaver, defendendo-o do inferno na fé ardente e pura da sua prece.