Que fará agora esta gente toda? Talvez conte commigo...
Ah, mas eu não posso ... eu não posso. Que trabalhem! para isso Deus lhes deu cinco dedos em cada mão.
No meio d'essas considerações acudia-lhe de vez em quando á lembrança o que estaria fazendo em casa a criada ... não fosse ella dar entrada a alguem!
Ruth soluçou alto; D. Itelvina não se mexeu, mas disse comsigo:
—Coitadinha...
E comsigo ficou no canto da sala, recebendo em cheio a onda dos soluços, que ora decrescia pelo extenuamento, ora redobrava pela violencia da commoção. O cheiro da cêra, a chamma tremula das tochas, faziam-lhe mal á cabeça. Desculpou-se com isso, de não ajudar ninguem; parecia-lhe que a hora do enterro tardava; mas devia chegar, e emfim chegou.
Paravam carros á porta, a sala encheu-se de gente. O Lemos e o Negreiros choravam. Cresceu o sussurro de vozes e de passos, era preciso fechar o caixão. Ruth desmaiou; as gemeas bradaram pelo pae, Nina acudiu a todos, com os olhos em sangue, e Camilla, tirando o lenço da face do morto, beijou-o tres vezes.
De volta do cemiterio, Dr. Gervasio entrou no palacete Theodoro. O gaz da sala de jantar estava em lamparina, elle mal distinguiu uns vultos a um canto; approximou-se. Era Camilla sentada no divan, entre as gemeas adormecidas. Ella, muito pallida, com uma brancura que sahia do negror das roupas, num polimento de marmore, interrogou-o com o olhar.
Calado, o medico entregou-lhe a chave do esquife. Evitaram o contacto das mãos: ella encolheu-se, elle recuou e foi sentar-se ao pé da mesa.
Era a primeira vez que se repelliam. Milla sentia na palma da mão a friagem d'aquella chave pequenina e pesada, sem saber onde guardal-a, com medo de a pôr no seio, achando irreverente guardal-a no bolso.