—A mim tambem. Ás vezes julgo mesmo que elle vem da cidade e que vou vêl-o abrir o portão... Pobre tio Francisco!

Pela primeira vez, pareceu-lhes que aquella mobilia impassivel lhes extendia os braços numa supplica.

Na secretaria, ao lado do codigo de Orlando, o tinteiro de prata já vazio e em que a canneta sem penna pesava num abandono de corpo morto, havia scintillações frias.

Nas paredes, chispavam as molduras dos quadros, e desenhava-se a figura atrevida do cavalheiro de bronze, de chapéo emplumado na mão, em um aceno arrogante de adeus.

Disseram-lhe o ultimo, e fecharam a porta.

Na limpeza da casa, Nina encontrara em um caixote, no porão, entre um sem numero de objectos mutilados e antiquissimos, o chicotinho com que Mario a zurzia nos dias de colera, quando, pequena e magra, ella fazia reboar pelos corredores a sua tosse de cão, que elle abafava gritando-lhe:

—Cala a bocca! cala a bocca!

Calar a bocca tinha sido todo o seu trabalho na vida. Com um triste sorriso desbotado, Nina separou de todos os objectos destinados para a fogueira, aquelle chicotinho revelador e prophetico, e guardou-o como reliquia.

Para que nascera ella, senão para ser batida?

Depois de toda a casa fechada, foram para o jardim. Camilla e as duas gemeas esperavam-nas sentadas no banco, em baixo da mangueira. Atraz d'ellas, muito magrinha e pallida, Ruth mal sustentava a caixa do seu violino, pasmando para as arvores amadas um olhar dolorido e longo.