Releram a carta; vinha atrazada. Já por lá deviam estar fartos de saber a verdade. Como teriam recebido a noticia? Camilla cerrou as palpebras; viu a mãe, tal qual era na primeira visita de Theodoro ao Castello: falladora, animada, com aquelles grandes olhos trefegos sempre reluzindo de esperança ... deveriam estar bem amortecidos agora, aquelles olhos, bem cançados de chorar... E, como nunca, Milla sentiu saudades do carinho e do consolo materno. Estava tudo acabado! Que ventura, se pudesse voltar a ser pequenina, innocente e adormecer no collo da mãe! Seria tão dôce... tão dôce...
Os rigores do lucto trariam a todos reclusos se a estreiteza da casa e o bom senso de Nina não reagissem contra as praxes. Depois, não bastava a economia, era preciso trabalhar, fazer pela vida.
Conheceram-se, pela primeira vez na familia, as agruras do calculo, o dever das restricções.
Mario escreveu lamentando ter de demorar-se em Paris, retido por uma doença de Paquita, cujo nome repetia em todos os periodos. A verdade é que na familia ninguem contava com elle, e que todos dissimulavam resentimentos, fugindo de aggravar tristezas.
Noca, prompta em expedientes, arranjou depressa freguezia para engommados.
Aquillo aborrecia Camilla, que não gostava de vêr trouxas de roupa atravancando a casa. O ferro, a fumaça, os peitilhos das camisas alvejando ao sol augmentavam-lhe o tedio e o mal estar. A vida pesava-lhe.
Uma tarde a mulata entrou com uma novidade: tinha encontrado uma discipula de violino para Ruth, a filha de um empregado publico da visinhança.
Camilla oppôz-se. Vêr a sua pobre filha andar na rua angariando dinheiro alheio? nunca. Não tinham ainda chegado a tal extremo...
—Mas tia Milla, a não ser que Mario lhe dê uma mezada, com que devemos contar? perguntou Nina, estupefacta d'aquella affirmativa e accrescentou: o que nós trouxemos, mesmo com economia, não dará para mais de dois mezes...
Camilla arregalou os olhos, como se só então tivesse a percepção da sua desgraça...