Sancha appareceu, com os beiços inchados pelo excesso do choro, e, despendurando a chave da porta da rua, segura pela argola a um prego na sala, olhou com ar de queixa muda para a Noca.
A negrinha não teve resposta: a outra disfarçava, contemplando as paredes núas e desbotadas da sala. Pela janella aberta via-se parte de um paredão desmoronado, e lá em baixo, em um fundo largo e fresco, um trecho de mar muito azul.
D. Joanna entrou, arfando de cançaço, e sentou-se logo na primeira cadeira, ao pé da porta. Sancha tirou-lhe a touca, guardou-lhe o livro e os rosarios, e sumiu-se, sem ter descerrado os labios nem enxugado os olhos vermelhos e inundados.
—Hoje a egreja estava repleta; fallou monsenhor Nuno ... foi um grande sermão, de muito proveito e de muita fé! disse D. Joanna, e depois de uma pausa: Ó Noca! Milla não vae nunca ás solemnidades religiosas?
—Vae todos os domingos á missa.
—Bem! que não deixe perder a sua alma! Entretanto, eu rezo por todos. A pena que eu tenho é de me custar tanto a ajoelhar ... estou com as pernas cada vez mais inchadas...
—Isso é scisma, resmungou D. Itelvina, retirando-se para o interior. Noca aconselhou logo um remedio prodigioso, benzido com cinco cruzes. Ella sabia d'essas coisas. Todos de casa a consultavam. A botica era a chacara, com as suas folhas, cultivadas umas, agrestes outras; conhecia-lhes os segredos, roubava-lhes os filtros mais subtis e applicava-os acompanhando-os com orações especiaes dos santos martyres. Era sempre a Noca quem avisava ás pessoas da familia qual o melhor dia para cortar o cabello, para fazer uma viagem ou para tomar qualquer mezinha. Sabia as voltas da lua, e traduzia os sonhos que lhe contavam, com palavras de convicção inabalaveis. Criara todos os filhos de Milla, desde o Mario até á Bijú, a pequena mais nova, já morta.
Quando ella descia o morro, as creanças queixaram-se de fome e confessaram que não queriam voltar a visitar aquellas tias, que não lhes davam nada. Nem um bocadinho de pão!
Na praça do Castello, Noca, com pena, entrou numa quitanda, posta de novo, brilhando ainda nas tijellas lavadas e no barro das panellas e das moringas á venda, e comprou fructas para as duas meninas.
Portuguezas, de saias curtas e grandes arrecadas de oiro, iam e vinham, parando umas á porta, com pimpolhos ao collo, e outras fallando alto, para dentro. A dona do negocio respondia a todos, conversando em ar de mexerico disfarçado, com a mulata, a quem via pela primeira vez.