O Dionysio dizia-lhe que a franceza era bonita e muito chic, e ella sentia no fundo uma curiosidade doida de conhecer a amante d'aquelle rapaz que embalara nos braços e cujo corpo redondinho e nú suspendera tantas vezes no ar p'ra o fazer rir. E fôra uma creança alegre; agora não era; pelo menos em casa mostrava-se tão arredio e tão sério... Noca suspirou e, depois de um levantar de hombros, proseguiu nos seus pensamentos:

—Afinal de contas, faz elle muito bem: a mocidade passa e o dinheiro foi inventado para se gastar. Elle gosta d'ella, acabou-se! Sabe Deus o que o pae teria pintado tambem; agora falla e quer dar leis ao coração do filho... Está-se ninando! Aquelle! pois sim! Cada um sabe de si...

Ao mesmo tempo sentia piedade pela Nina. Em casa a unica pessoa que percebera aquelle segredo fôra ella. Sabia, mas calava-se muito bem calada; para que arranjar barulhos? Era tão boa, a pobre, tão facil de contentar... Bastava vêr os vestidos e os chapéus que ella usava: tudo restos de Milla e de Ruth, que ella fuchicava a seu geito... Nunca pedia nada, nunca se punha em evidencia, ninguem se lembrava até quando ella fazia annos! Talvez houvesse em casa um pouco de ingratidão para com a moça; mas de quem era a culpa? Mario era um rapaz rico e de bom gosto, havia de escolher mulher mais bonita, que fizesse vista numa sala.

Noca adorava o Mario; achava-o lindo, com o seu pequeno buço aloirado e os seus olhos negros e pestanudos. A flor da familia. Aquelle sahira á mãe.

Passava um electrico. As creanças sacudiram a mulata:

—Vamos, Noca!

—Vamos mesmo, que hoje de mais a mais é terça-feira...

A conselho do Dr. Gervasio Camilla, tinha marcado as terças-feiras para as suas recepções. No começo houve reluctancia em casa. Francisco Theodoro gostava de porta franca em todos os dias da semana; a mulher mesmo, criada em velhos habitos, vexava-se de marcar dia para as suas visitas. Comquanto o novo systema a constrangesse, submetteu-se, porque era da vontade do Dr. Gervasio, e para esse o portão da chacara estava sempre escancarado.

Elle não faltava, ia vêl-a todas as manhãs, almoçar no logar de Francisco Theodoro, que almoçava sosinho duas horas antes, a um canto da grande mesa vazia; e alli o medico ensinava áquella gente o meio de se conduzir na sociedade, polindo-lhe o espirito, alterando-lhe os gostos, fazendo-a preferir o queijo que elle preferia, o vinho de que mais gostava, as aves e as caças com molhos delicados, de fino paladar.

A docilidade dos ouvintes fazia-o abusar de phrases que elle formava para si, com o pretexto de as dizer aos outros, e que elles todavia acceitavam, com agrado, num sorriso...