—Por que?

—Fez um rasgão no filó doirado. Por isso Deus poz alli a cruz, para que o diabo não tornasse a passar pelo buraco.

O capitão sorriu.

—Se eu fosse passaro, continuou ella, gostaria de voar á noite...

—Como as corujas.

—Não. As corujas são feias, mettem medo, e eu só gosto do que é bonito. Quereria ser uma ave branca e com azas tão fortes que me levassem até acima das nuvens. Desde pequenina que eu gosto de olhar para o céo e que me desespero por não poder voar... Ás vezes sonho que estou voando ... e é tão bom!

O capitão Rino lembrou-lhe que fosse ao Observatorio do Castello, o que lhe seria facil, visto ter lá familia na visinhança. Assim veria bem a lua e a côr das estrellas.

Interessado por aquella imaginação ardente, o capitão Rino explicava á menina os nomes das estrellas, sentindo roçar-lhe pelo hombro o cabello d'ella, vendo-lhe na transparencia luminosa do olhar a chamma de uma curiosidade insatisfeita.

Elle tinha uma linguagem clara, mas interrompia as phrases de vez em quando, com sobresalto, voltando-se para a sala attrahido pela voz de Camilla.

Ruth nem percebia a causa nem reparava mesmo naquelles movimentos e continuava a interrogal-o, com o olhar acceso para o grande céo illuminado.