Tinha elle por habito, tornado já em cacoete, remexer com a mão curta e gorda o dinheiro e as chaves guardados no bolso direito das calças. No começo da sua vida, dura de trabalho e de aspera economia, aquillo seria feito com intenção; agora representava um acto machinal, alheio a qualquer pensamento de avareza ou de orgulho de posse.

Depois de muitas horas de trabalho febril, sem repouso, vinha o momento de paragem, a hora do café, que um mulato moço, o Isidoro, levava primeiro ao escriptorio, servindo depois os empregados do armazem.

Os degráos já gastos da escada rangiam então ao peso de um commissario visinho, o João Ramos, e do ensaccador Lemos, da rua dos Benedictinos, do Negreiros, da rua das Violas, e do Innocencio Braga, recentemente associado ao grupo. Ás duas horas reuniam-se sempre alli para o cafézinho, descançando o corpo e desannuviando o espirito com palestras de seu interesse e do seu gosto.

Nesse dia tinham soado já as duas, quando os negociantes appareceram.

Francisco Theodoro levantou-se e bateu com os pés, desenrugando as calças.

—Homem! vocês tardaram...

—Culpa do Lemos...

E depois:

—O senhor está com a casa repleta!

—Tenho exportado muito café!