Francisco Theodoro gyrou pela casa, verificou se estava tudo bem fechado e fez á mulata as perguntas previstas pela mulher. Depois, já a caminho do dormitorio, voltou-se e foi dizer-lhe:
—Olhe, Noca, se a enxaqueca do Mario augmentar, sempre será bom dar-lhe uma pastilha de antipyrina...
—Sim, senhor, eu vou vêr...
Francisco Theodoro sahiu, e a criada suspirou, vexada, abaixando a cabeça.
[IV]
Era meio-dia, quando o Dr. Gervasio saltou do bond e encaminhou os seus pés bem calçados para a rua dos Benedictinos.
Já o trabalho descia torrencialmente por toda a larga rua. Carroções fragorosos abalavam os parallelipipedos, ameaçando esmagar tudo que topassem adeante, numa chocalhada, aos arrancos dos burros alanhados pelas correias dos chicotes. Carroceiros vermelhos, de grenha suja e pés gretados, esbofavam-se, agarrados aos grilhões dos varaes, saltando deante das rodas, na bruteza selvagem da sua lida.
Ao alarido das vozes confundidas, misturavam-se o cheiro do café crú e a morrinha do suor de tantos corpos em movimento, como que enchendo a atmosphera de uma substancia gordurosa e fétida, sensivel á pelle pouco afeita a penetrar naquelle ambiente.
Atravéz dos crystaes da sua luneta de myope, o Dr. Gervasio olhava para tudo com o seu ar curioso, de cabeça erguida e narinas dilatadas, como se o olfacto o ajudasse tambem um pouco a conhecer o porque e o destino de todas aquellas coisas.
Com a bengala suspensa, os dedos das luvas irrompendo-lhe do bolsinho do veston, a cartola luzidia, a gravata clara, picada pelo brilho faúlante de um rubim, elle atravessava como um extrangeiro aquellas ruas, só habituadas aos chapéos de côco, ás roupas do trabalho diario, alpacas e brins burguezes, ou aos trapos immundos dos carregadores boçaes.