Como tivesse perdido o endereço do velho Motta, teve o Dr. Gervasio de subir ao escriptorio de Francisco Theodoro. No armazem, em baixo, a grita do negocio tocava á loucura: pareciam todos impellidos por molas flexiveis, de movimentos rapidos; eram machinas, não eram homens, aquellas creaturas nunca dobradas ao peso do cançaço...

O Dr. Gervasio, presumindo-se de forte pela sua ducha fria e a sua gymnastica de quarto, espantava-se da maneira lépida por que aquelles homens tiravam as saccas do alto das pilhas e as punham aos hombros. O seu braço fino, mas valente, sentia-se humilhado deante d'aquelles biceps de athletas.

Francisco Theodoro sorria-se do seu espanto, e para que elle não perdesse de novo o endereço, chamou um rapaz do armazem, o Ribas, e mandou-o acompanhar o medico até á casa do enfermo.

—Será melhor assim; disse elle, não haverá perigo de errar o caminho, porque, comquanto você seja carioca, nesta parte da cidade, olhe que é mais extrangeiro do que eu!

O Ribas sacudiu a poeira do chapéo, enterrou-o até as orelhas enormes, e, balançando os longos braços sem punhos, dentro d'um casaco enfiado á pressa, caminhou adeante, todo vergado, como um velho.

E por toda a rua de S. Bento, elle guardou aquella compostura, sem relentar os passos nem voltar a cabeça. Entrado na da Prainha, modificou a atttitude de caixeiro em serviço, foi-se deixando ficar atráz, até marchar ao lado do medico, morto por lhe pedir um cigarrinho.

O Dr. Gervasio percebeu-lhe a vontade.

Deu-lhe cigarros.

Atravessavam o largo da Prainha; que o sol alcatifava de ouro. Fazia calor. Ribas lembrou:

—Se o senhor quizer tomar alguma coisa, aquelle botequim é muito bom.