—Não tenho sêde.

—É que lá para deante não ha nenhum que preste...

«O rapaz quer cerveja, pensou comsigo o medico; pois façamos a vontade ao rapaz.»

Entraram no botequim. Em uma salinha estreita, com chromos nas paredes e papeis de cor no lampeão de gaz, havia tres mesinhas vazias e uma occupada por dois ciganos angulosos, que gesticulavam largamente, sacudindo-se nas suas longas sobrecasacas encebadas. Tudo ás moscas. O dono da casa veio, com ar somnolento, pedir as ordens; o Dr. Gervasio deu-lh'as, olhando para um violão pousado no balcão, e de que se dependurava uma larga alça de cadarço vermelho.

Aquelle instrumento abandonado suggeriu-lhe a idéa das noitadas de modinhas amorosas pelas estreitas ruas do bairro. Ou na treva, ou á claridade baça do luar, aquelles predios teriam ouvidos com que escutassem musicas vagabundas? Afigurava-se-lhe que não. A fadiga dos seus dias rudes tornaria de chumbo o seu somno, impassivel a sua alma cançada. Por mais que o trovador berrasse, a sua voz chegaria lá dentro como um leve zumbir de abelhas...

O dono do botequim julgou vêr no olhar do medico um reparo ao desleixo da sala e arrebatou a viola para dentro.

«Foi-se a unica nota pittoresca», pensou Gervasio, atirando os nickeis para a mesa.

Continuaram calados o seu caminho. E era um caminho todo novo para o medico, que o achava interessante na sua fealdade, extravagante no seu conjuncto de velharias e sobejidões.

A novidade do meio dava-lhe um prazer de viagem: beccos sordidos, marinhando pelo morro; casas acavalladas, de paredes sujas; janellas onde não acenava a graça de uma cortina nem apparecia um busto de mulher; caras preoccupadas, grossos troncos arfantes de homens de grande musculatura, e ruido brutal de vehiculos pesadões, faziam d'aquelle canto da sua cidade, uma cidade alheia, infernal, preoccupada bestialmente pelo pão.

Subiam a rua da Saude. Chegando á esquina do becco do Cleto, Dr. Gervasio olhou: ao fundo, no mar muito azul, barrava o horizonte um vapor do Lloyd.