Ella chorava, muito encolhida, fazendo-se pequenina, no desejo de desapparecer.

—Perdôe-me, mamãe; mas que queria que eu dissesse?!

Camilla levantou para o filho os olhos humilhados, e murmurou quasi imperceptivelmente:

—Nada...

Mario recomeçou a passear, com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa. Camilla, ainda na poltrona, com as costas para a janella, os cotovellos fincados nos joelhos e o queixo nas mãos, procurava uma palavra com que pudesse convencer o filho da sua innocencia. Tudo lhe parecia preferivel áquella humilhação. Daria a luz dos seus olhos,—ah, antes ella fosse cega! para que Mario a julgasse pura, muito digna de todo o respeito das filhas, muito honesta, toda de seu marido e das suas creanças... Comprehendia bem que o sentimento e a imaginação nas mulheres só servem para a dôr. Colhem rosas as insensiveis, que vivem eternamente na doce paz; para as outras ha pedras, duras como aquellas palavras do seu filho adorado. Antes ella fora surda: não as teria ouvido!

Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros corpos ... e ahi estava como d'elle só se dizia bem! Elle amara outras pela volupia, pelo peccado, pelo crime; ella só se desviara para um homem, depois de luctas redemptoras; e porque fôra arrastada nessa fascinação, e porque não sabia esconder a sua ventura, ahi estava a bocca do filho a dizer-lhe amarguras...

Lia e Rachel corriam no jardim, batendo por vezes na venezianna do quarto.

Mario aconselhou:

—Será bom apparecer; as meninas estão notando a sua ausencia...

—Antes eu tivesse morrido no dia em que nasci! pensou Camilla levantando-se.