Numa manhã limpida, côr de saphira, Camilla e Ruth entraram com Theodoro e o Dr. Gervasio na lancha—Aurora—em demanda do Neptuno.
O sol cobria com uma rêde de ouro movediça a superficie das aguas; fazia calor.
As senhoras ageitaram os folhos das suas saias de linon no banco da ré, e abriram as sombrinhas claras.
—Sempre gostaria que me provassem a serventia d'esses chapéos de sol. Não resguardam nada. São objectos inuteis. Eu se fosse mulher nunca me sujeitaria a modas, disse Theodoro.
—Faria mal. Quanto aos chapéos, acho-os bonitos; são muito decorativos. Veja como a côr de rosa da sombrinha de Ruth, e a crême de D. Milla se harmonisam neste fundo azul. Digam o que quizerem; para mim a intuição da arte está na mulher, retrucou Gervasio.
—Póde ser. Eu só gosto do que é positivo e pratico. Emfim, nas senhoras ainda eu perdou o certas niquices...
Sabia Theodoro que o espirito e a posição de um homem se espelham nas suas roupas; por isso as d'elle eram sempre graves.
Para tudo que não fosse o trabalho, envergava a sobrecasaca, bem abotoada sobre o estomago arredondado.
A sua cartola luzidia, bem tratada, affirmava ás turbas que ia alli alguem de cortezia e respeito; era como se o seu titulo de commendador tremeluzisse no setim d'aquelle pello. Não sahia de casa sem carregar o guarda-sol de excellente seda portugueza e castão de ouro, traste que o protegeria em um amplo circulo, se acaso chuvas cahissem inesperadamente. Previa tudo; com habilidade, harmonisara á maneira do traje a dos seus discursos, sempre entrecortados de: taes como, de maneiras que, porém, tal e coisas...
Já a lancha singrava as ondas mansas, quando elle contou ao Dr. Gervasio que ahi uns collegas seus amigos queriam arranjar-lhe um titulo de Portugal; elle fizera constar que não acceitaria a distincção, mas, se a coisa viesse, que havia de fazer?