Sinhá seguira até a extremidade do jardim e olhava para deante, para o valle despido de neblinas, resplandecendo no azul do dia. Entretanto, a Pedrosa encommendava o seu almoço alli mesmo, no ponto mais visivel do jardim, inquirindo ao mesmo tempo com a vista se o inglez estaria almoçando na sala de jantar...

Não estava; e o criado, geitosamente interrogado, declarou ter Sua Excellencia descido no primeiro trem, para ir buscar um amigo a bordo do Magdalena.

A Pedrosa olhou com raiva para os dois copos de vermouth e apressou o almoço!

Sinhá contemplava a paizagem magnifica, afastada da mãe, perturbada por um sentimento que não saberia explicar. Era como se meia despertada de um sonho extravagante a sua consciência não pudesse determinar ainda bem a realidade da vida, presentindo-a apenas...

Um dia de setim, macio, vasava sobre montes e mares uma luz clara, destacando as copas das arvores e os pedregulhos das praias, escorregando pelas encostas acolchoadas de matto, de onde irrompiam pios de aves e manchas alvinitentes das umbaúbas. Duas grandes borboletas de um azul doirado intensissimo, perseguiam-se, indo e vindo, ora ao pé, ora longe da moça, que as acompanhava com o olhar deslumbrado. Para onde ia uma, partia logo a outra, para voltarem juntas, pousarem no mesmo galho, beijarem a mesma flôr.

Amam-se, e o amor deve ser aquillo, o não poder estar uma sem a outra, na ancia do beijo definitivo, do laço que as prende até á morte!... Felizes as borboletas, que procuram sózinhas os seus casaes...

—O homem foi-se! exclamou a Pedrosa, approximando-se da filha. E logo depois:

—Estás com os olhos chorosos!

—É de olhar para a luz...

—Bem, vamos almoçar. Ora que contrariedade! O bebado não podia escolher outro dia para ir buscar o amigo! Diz que foi buscar um amigo a bordo. Emfim, é um passeio... ha de fazer-nos bem... ficará para outra occasião...