—Sim, mamãe.
—Que! de azul?! Não! muda de vestido. Branco, branco! Trouxe-te os meus brincos de perolas. Toda de branco, só com estas duas perolas nas orelhas, ficarás melhor. Como uma noiva...
O olhar da mãe acariciava a filha, que sorriu com tristeza.
A Pedrosa tornou a sahir, recommendando pressa; ella ia para a sala esperar os amigos; antes de abrir a porta puxou a filha a si e beijou-a com ternura.
A moça começou passivamente a desenlaçar o seu vestido azul, pensando no ar mysterioso com que a mãe a attrahira naquelle beijo.
Sem poder obedecer ás ordens maternas, que lhe haviam imposto pressa, ella, mal enfiou o seu vestido branco, deixou-se cahir sentada na beira do leito e alli ficou um largo espaço de tempo, com os olhos fixos no vacuo e os dedos embaraçados nas fitas desatadas do cinto.
Tinha pensado muito desde aquelle passeio ao Corcovado e começava a comprehender o seu papel... A mãe offferecia-a ao Argemiro... era por causa d'elle que lhe puzera nas orelhas aquellas perolas, que pareciam queimal-a... Porque? Porque elle era rico e occupava na sociedade um logar brilhante... Amava-a elle? não!... amava-o ella? talvez...
Na verdade, a imagem de Argemiro nunca se lhe apresentara senão levada pela mão da mãe... lembrava-se mesmo de que a primeira vez que o vira achara-o velho e triste... depois, a pouco e pouco, habituara-se a imaginar-se noiva d'aquelle homem sério, que todo o mundo dizia votado inteiramente á sua viuvez... e agora eil-a enciumada de uma mulher de cuja existencia até ás vesperas nem suspeitara e que occupava já o logar que a mãe lhe destinava a ella!
A figura de Alice desenhava-se inteira deante dos olhos pasmados da moça. Revia-lhe o rosto de um moreno pallido, de feições irregulares; o talhe esbelto do corpo, as mãos longas, o vestido cinzento, alegrado por uma gravatinha azul...
Que idéa faria d'ella o Argemiro? Um leve rubor subiu-lhe ás faces e ella escondeu o rosto entre as mãos geladas.