«Bem dizem os romancistas, que os romances se fazem por si. Creada a personagem, posta no meio em que terá de agir, ella caminhará por seus pés até ao ponto final do ultimo capitulo.

Acontece por isso que o auctor tem ás vezes verdadeiras surprezas, como se todos os actos dos seus heróes não fossem obra sua! Concebida a idéa fundamental do livro, está creado o sopro de vida que o animará. A difficuldade está toda no primeiro impulso! Hei de sempre lembrar-me de uma noite em que fui encontrar o Thadeu, pallido, passeando agitadissimo pelo escriptorio, com um verdadeiro ar de furia.

—Que tens tu?! perguntei-lhe assustado, de entre portas.

Voltou para mim os olhos esgazeados e disse, com uma sinceridade commovedora:

—Tenho que o patife do Braz apaixonou-se por tal fórma pela Delfina, que não sei como hei de casal-o com a Lucinda! E apontava com o dedo colerico para as folhas esparsas do seu romance, desordenadas por um vento de insubmissão. O caso era grave. Entrei, sentei-me e fiquei calado, assistindo ao duello fantastico de um romancista com a sua personagem revoltada.

Por fim aventurei timidamente, querendo valer áquella afflicção:

—Por que não casas essa tal Lucinda com outro... que diabo!

—Com outro?! estás doido! Ella adora o Braz e não póde absolutamente casar com outro. Seria um desastre! Com o Braz é que ella ha de casar, quer elle queira, quer não queira!

O desespero do romancista era tão evidente e profundo, que eu não ri. Fiquei desde então convencido de que a ficção, como a realidade, obedece a leis de imprevisto e de fatalidade. Li depois o romance... O Braz não casou com a Lucinda. Porque não quiz, está claro!

Adolpho, acabando de dizer estas palavras, soltou uma baforada de fumo, afundou mais o corpo na larga poltrona do Argemiro e suspirou: