Como faltasse o pianista, foi mesmo a Pedrosa para o piano, rompendo com força os primeiros compassos da quadrilha. Argemiro aproveitou aquelle instante de alegria, para ir buscar o chapeu e o sobretudo ao pavilhão japonez e sahir para a rua sem ser visto.

O pavilhão estava a meia luz, para que toda a força do gaz convergisse para a sala. Nas paredes forradas de esteirinha as japonezas dos kakimonos requebravam-se entre os setins das suas kobaias e o ouro das borboletas e dos crysanthemos dos seus penteados... Carinhas de marfim, graciosamente pendidas sobre os hombrinhos estreitos, pareciam offerecer as cerejas das boquinhas para a guloseima de um beijo. Aves e insectos delicados, de azinhas transparentes, voejavam entre os galhos de pecegueiro em flôr, nos pannos cinzentos dos biombos. No meio do pavilhão, um enorme vaso bojudo, fabricado em Kioto, sustinha um profuso ramo de camelias brancas, grandes e silenciosas...

Os passos de Argemiro morreram ao entrar no pavilhão, abafados na esteirinha, e elle dirigira-se para o fundo, onde deixára o agasalho, quando Sinhá sahiu de tráz do biombo e veio ao seu encontro, trazendo-lhe ella mesma nas mãos a capa e o chapeu.

Argemiro não pôde conter um movimento de surpreza. Ella, muito séria, com uma gravidade que a tornava linda, estendeu para elle o agasalho e disse com um fio de voz suave e triste:

—Agradeço a sua resolução... vá-se embora e peço-lhe que não volte, senão quando souber que eu já não estou aqui... Para o senhor isso não será um sacrificio; e quanto a nós... a saudade que nos deixar será attenuada pela certeza do seu respeito e da sua estima...

Toda de branco, naquella meia luz em que bailavam insectos e sorriam japonezas, a figura grave da moça resuscitava uma visão de sonho, que perturbava o espirito de Argemiro. Elle curvou-se, beijou-lhe as pontas dos dedos gelados e com a voz engasgada pela commoção, affirmou:

—Eu não a tinha comprehendido, distanciado como estou da sua edade e da sua perfeição... Consinta que eu volte no dia em que o seu coração de menina tiver encontrado um outro coração, moço e digno d'elle! Bastará então uma palavra sua: venha!

Sinhá não respondeu. Argemiro acceitou o agasalho das mãos d'ella e sahiu, commovido, tonto. Fóra, as estrellas palpitavam luminosamente no fundo avelludado do ceu. O ar cheirava a flôres. E o viuvo caminhava a pé, sózinho, pensando nas surprezas d'esta vida de civilisação, e revendo a pallidez da moça, o seu olhar sincero e transparente. Não teria elle repellido a felicidade?

Entretanto, vendo-o sahir, Sinhá recolheu-se para tráz do biombo, chorando devagarinho, devagarinho, em segredo.

[XII]