—Para que te servem os olhos? para que te serve o entendimento e a moral? Já te esqueceste das ultimas palavras da nossa Maria? Não as ouviste tão de perto e tão bem como eu?

—A nossa Maria... morreu...

—Para ti e para os ingratos; não para mim, sua mãe, que a adoro e a vejo sempre deante dos meus olhos! Como é triste a morte, que até faz esquecidas as filhas aos proprios paes!

O barão retirou de novo os oculos, collocou um peso sobre os papeis em que catalogava as suas plantas e contemplou a mulher demoradamente, com tristeza. Ella estava abatida, com os olhos empapuçados, as faces emaciadas, o pescoço mais molle e pellancoso.

—Minha pobre velha! tem paciencia e resigna-te. Comprehendo a tua magoa, mas é preciso esforçares-te por comprehender tambem o mundo tal como elle é. Imagina que a tua neta é ella, a nossa Maria, e concentra nella todo o teu carinho e todo o teu amor... já não peço nada para mim... bem vês! Gloria é a filha da tua filha, vive para ella aqui, no meio das tuas arvores e não penses no que vae lá por baixo, pela casa dos outros.

—Casa de minha filha.

—De teu genro. Tua filha já não existe.

—Para mim existe! E depois, tu não vês que já me vão tambem roubando a neta? D'aqui a pouco estaremos sós!

—Não... não é tanto assim!

—Desde que o Argemiro tem aquella peste em casa...