Será ella na verdade a mulher perigosa, não pelo que calcula e inventa, mas pelo que merece? Não será prudente encobrir, tanto quanto possivel, essa feição singular do seu caracter ao Argemiro?... Gloria não repetirá ao pae as palavras que me disse, fica-lhe no coração o sentido, mas a memoria não as guardará com a mesma fidelidade... Eu serei mudo... Convém ser mudo. Elle quer guardar a sua independencia... e nem percebe que já está captivo! Diz que não. É sincero quando o diz... pensa que não. Nunca a vê... Mal lhe ouviu a voz um dia... Entretanto, só se alegra quando entra em casa... já não olha com o mesmo olhar saudoso para o retrato de Maria. Se a governante sae, estando elle em casa, logo se aborrece.
É exquisito. Não a ouve... não a vê, mas sente-a! Como acabará tudo, se ella não fôr o que parece?... Ha almas tão complicadas, tão indecifraveis! A d'esta mulher assusta-me... preciso defender o Argemiro... sou o unico amigo em contacto com ambos...
Ella é difficil... eu desageitado. Se eu fosse mais corajoso e ella mais franca... Mentirosa?... não me parece... mas é possivel. Minha mãe gostou d'ella. Mas o coração de minha mãe é propenso á sympathia. O melhor coração da Terra!... Argemiro mudou. Está illuminado... Ella envolve-o com um cuidado excessivo... é isso que me faz scismar... Emfim, seja como fôr, a verdade é que a minha Gloria tem aproveitado. Cá em baixo parece outra. Deixa a casca selvagem com a avó, e fica de setim! Teremos isso de lucro! Porque, afinal, para tudo o mais o remedio é a inercia.
Gloria era esperada pelo avô no escriptorio do pae e, como o velho tivesse pressa, as despedidas foram precipitadas. Só depois d'elles sahirem Assumpção reparou na expressão aborrecida do amigo.
—Que novidades temos? Estás com uma cara!
—Imagina: minha sogra vem morar commigo!
—Felicito-te. Terás assim tua filha sempre a teu lado. Parece-me que já lhe pediste isso mesmo ha tempos.
—Quando enviuvei. Então não quiz. E agora...
—Quer. É natural.
—Mentes; não achas natural. Tu percebes tudo tão bem como eu.