—Direi mais: acho que faz bem.

—Em espionar-me?!

—Defender-te.

—Quem me ameaça?

—A tua imaginação.

—Vocês são todos uns imbecis!

—Talvez...

—Metteu-se-lhes uma asneira em cabeça e é alli! Eu sempre quero saber que mal fez a pobre moça á minha sogra! E a vocês todos, que a guerream... mas guerream porque? porque traz a minha casa alegre, cheirosa, bonita, limpa; porque economisa o meu dinheiro, fazendo-me passar bem como nunca, e ainda corrige a minha filha de feios vicios de educação! A eterna malicia faz d'isto um enredo e mette-se-me no caminho para me perturbar. Tu sabes que eu quero muito á minha sogra; depois da morte de Maria redobrou por ella o meu affecto e a minha consideração... Sabes que tenho um grande prazer em vel-a, em estar a seu lado, em chamal-a mamãe... como uma criança... como minha mulher fazia... Sabes que sou fiel ao passado e ao juramento que fiz; sabes tudo isso e sabes tambem que sou profundamente egoista, que amo a ordem, o silencio, o socego, o conforto e a liberdade! A liberdade, sobretudo! Aquella creatura que tenho em casa não é uma mulher; é uma alma, que me não constrange absolutamente em nada. Levanto-me, deito-me, saio, entro, janto, converso, ralho ou rio, sem ter que dar por isso a minima satisfação a ninguem. Vaes vêr agora! Minha sogra e ella são incompativeis...

—Talvez não...

—Sim, com certeza! Abre-se a guerra. A moça sae. O Feliciano readquire o perdido prestigio. Começa o desbarato dos charutos, das camisas engommadas e das gravatas. A mobilia ficará com pó; a comida será atirada para os pratos como para os cães. Minha sogra, velha e pesada, não poderá subir e descer as escadas na fiscalização dos quartos. Os retratos de Maria apparecerão rodeados de perpetuas e sempre-vivas, flôres da minha especial embirração; aquelle perfume suave que me entrou em casa com esta rapariga, desapparecerá com ella; abrirão a porta do gallinheiro para o jardim e seccarão roupas no gradil do terraço do fundo... Verás! Á noite não poderei passear no meu quarto, como costumo fazer, com receio de incommodar a mamãe, que tem somno leve e soffre de enxaquecas; e terei mesmo, para socegal-a, de apagar a vela muito antes de adormecer, porque tem medo de incendios!...