Em frente de Argemiro o padre Assumpção, encostando os hombros quadrados no alto espaldar da cadeira de couro, dilatava as narinas ao aroma das frescas rosas que alegravam a mesa.
Para tornar uma hora agradavel basta ás vezes bem pouca coisa... pensava elle comsigo.
Uma toalha bem limpa... umas flôres orvalhadas... esmaltes de loiças reluzindo... e já os olhos e o olfacto tem um repasto regalador... Ámanhã, as coisas estarão de outra maneira, que é vezo de inimigos contradizerem-se em tudo. E então Argemiro confessará o que ainda pensa ignorar...
—Acredita, meu velho, estás hoje com a fisionomia differente! Salvaste com certeza alguma alma do purgatorio...
—Talvez... mas talvez sejam tambem effeitos de um sonho que tive esta madrugada.
Imagina: eu estava sentado a um orgam de uma cathedral enorme, e de tão peregrina belleza, que nenhuma haverá assim sobre a terra... Por toda a vastidão do templo estendia-se uma luz pallida, de alvorecer ou de luar, desenhando nas naves os rendilhados das rosaceas e as figuras dos vitraes... Eu tocava musicas solemnes e de tão concentrado, tão profundo sentimento, que as lagrimas me cahiam dos olhos aos pares, quando acordei, e tenho andado todo o dia com a alma cheia de harmonias. Se eu fosse moço, teria corrido ao Instituto de Musica a vêr se tornaria um dia possivel tal ventura...
Por que hão de vir tão tarde semelhantes sonhos?!
—Para que se não realizem.
—É isso. Minha mãe, lembras-te? adorava a musica, e o piano poucos segredos teria para ella. Foi pena que não me tivesse transmittido essa prenda... A arte da musica é perfeitamente compativel com o sacerdócio e eu teria uma valvula para as minhas febres...
—Escreve...