A mãe não tinha ciumes. Sorria. Se elle tivesse tres filhos amaria os tres, mas em verdade se preoccuparia mais com a menina! Os de casa eram rapazes, ambos de origem extrangeira, orphãos de italianos desconhecidos. Gloria, essa era uma continuação dos entes que mais se prendiam ao seu passado, do Argemiro e d'aquella suave Maria, que o estimara como irmã.
D. Sophia encontrara a salvação nos pequenos a que se dedicava. O seu espirito carecia do sonho. O filho cortara pela raiz todos os que floresciam nella até ao dia em que se fez padre...
Com o correr dos tempos, fôra-se habituando á batina do filho, mas continuava a frequentar pouco a egreja, certa de que Deus a ouviria egualmente do seu humilde canto.
Assumpção mudara tambem; perdera a taciturnidade, interessava-se pouco a pouco pela vida.
Mas a salvação de D. Sophia eram os pequerruchos, muito clarinhos e loiros, taes quaes ella sonhara os netos. Um começava a falar, o outro já dizia tudo numa meia lingua que era uma musica deliciosa. Ella, que tinha o espirito creador e era, sobre todas as coisas, amiga da humanidade, toda se desvelava em aperfeiçoar aquelles dois seres, cahidos como mercê divina nos seus braços saudosos.
Já decretara: um seria medico, o outro seria engenheiro; e ambos produziriam obras beneficas e se casariam com bondosas mulheres!
Assumpção sorria, animando a phantasia da sua querida velha. A experiencia de nada serve aos teimosos: e ella era uma obstinada.
Não fôra elle acalentado com as mesmas esperanças enganosas, certezas que ficaram em esboço nos dias da mocidade?
Ás vezes ainda, interrompendo o silencio do serão, D. Sophia suspirava:
—Quando me lembro, meu filho...