Arlindo Telles accenou com a cabeça que sim, e chupou com mais força e maior satisfação o seu havana.
Caldas continuava a meia voz:
—Contempla áquelles biceps e córa! Homem da cidade, da manhosa politica e das sobrecasacas bem feitas, não te envergonhas dos teus braços deante d'áquelles?...
—Se eu discutisse a murros...
—Quanto mais vigoroso é o braço, mais franca é a lingua!... Digo-te por mim, que as minhas banhas sentem-se humilhadas, offendidas, por áquelles musculos. A nossa raça salva-se. Ainda bem para os paes de familia... Vê o modo energico e bem rythmado por que os remos d'esta baleeira vêm golpeando a agua...
Telles soprou a baforada do seu charuto aromatico, e respondeu:
—Prefiro olhar para o pavilhão e as archibancadas... Se os rapazes são fortes, as mulheres são bonitas, e eu guardo para ellas, em todos os tempos e logares, a minha predilecção. Hum! isto hoje está chic... Se as galerias da Camara tivessem esta sociedade... eu falaria todos os dias!...
—Vês que as mulheres dão mais apreço ao musculo que ao verbo... Empresta-me o binoculo. Dança-se nas barcas...
—D. Maria Helena está no pavilhão... tambem lá estão as Tavares... a Chiquita Maia... A Pedrosa e a filha. Precisamos cumprimental-as.
—Depois... Deixa-me beber saude pelos olhos. Faze outro tanto, que precisamos ambos de lavar a alma...