Argemiro não conteve um movimento de surpreza:

—É impossivel!

—Antes eu tinha a intuição d'isso; tive depois as provas, toda a certeza. Encontrei-a muitas vezes aqui, olhando para o seu retrato; vejo a ternura com que ella aperta nos braços sua filha, o desvello exaggerado com que trata tudo que diz respeito á sua pessoa e como enrubece ao pronunciar o seu nome. Affirmo-lhe que o ama. Eu nunca me enganei. Certa d'esta verdade, deliberei despedil-a antes da sua chegada, do que não me arrependo, por que era tempo de acabar a comedia, que não podia ser presenceada por minha neta.

—Minha senhora!

—Ah! já não diz minha mãe!... Era ainda... Emfim! peço-lhe desculpa se o offendi.

—Fallemos com calma. Não sei em que lingua hei de dizer, para fazer-me entendido: que nem sequer sei a côr dos olhos d'essa senhora, cujas feições ignoro e cuja voz mal tenho ouvido a distancia! É bonita? é feia? Que me importa! Nunca a vi. Não quero vêl-a. Para mim ella não é uma mulher, é uma alma apenas, que me enche a casa de perfumes, de conforto, de doçura, como nunca tive em minha vida.

—Nem no tempo de Maria?! Era o que faltava ouvir?

—Mas não fallemos do passado, pelo amor de Deus!

—Como não, se a elle está você preso por um juramento?! Nega ter jurado á minha filha, na hora da morte, fidelidade eterna?!

—Não deixei ainda de cumprir tal promessa; mas não teria escrupulo em fazel-o se as condições da minha vida o exigissem. Esse juramento foi sincero, mas mesmo sem sinceridade eu o faria naquelle transe, para adoçar o passamento de minha mulher...