A baroneza abandonava-se, com desanimo, sentindo-se muito só. Os outros esperavam, voltados para Assumpção. Elle começou:
—Esta moça, que toda a gente recebeu com certa malignidade, de que eu não fui isento, exerce o encargo de governante d'esta casa para manter uma velha paralytica e um velho cego, verdadeiros cacos humanos, que ella visita todas as quarta-feiras piedosamente e de quem é o amparo. Filha unica de um advogado brasileiro, Constantino Galba e neta materna do General Vitalino Ortiz, logo que perdeu a mãe, foi mandada a educar num dos melhores collegios da França, onde viveu até que, por morte do pae, ficando quasi reduzida á miseria, voltou ao Brasil.
Aqui, por toda familia viu-se entre dois criados, uma velha que já fôra ama do pae, e o marido, antigo camarada do avô. Bens, só tinha uma casinhola velha em que se accommodou com o casal dos derradeiros amigos. Encararam os tres a vida com animo. O homem trabalhava ainda e viveram quasi sete annos dos recursos d'esse trabalho e de outros, incertos, de D. Alice: costuras... pinturas... bordados... Afinal lá chegou um dia em que o velho teve de sahir de scena. Cegou. Trabalhara demais. Com o desgosto e outras fadigas da edade, fica-lhe a mulher paralytica; e eis a nossa D. Alice entre esses dois seres de redobrado peso. Redobrou tambem ella de actividade nos trabalhos manuaes... propoz-se a dar lições... mas não lhe appareciam discipulos; os trabalhos, mal remunerados, não matavam a fome aos seus velhos...
Foi por essa occasião que appareceu no Jornal do Commercio um annuncio offerecendo um bom ordenado a uma senhora para governar a casa de um viuvo. Ella não hesitou. Os seus velhos teriam pão, ella um pouco mais de descanso... A filha do advogado, a neta do general, sujeitou-se a esse emprego para matar a fome aos seus criados.
A baroneza olhava para Assumpção, interrogativamente. Seria verdade tudo aquillo?...
Elle continuava:
—A pobreza apura os dotes naturaes da creatura; ella trouxe para aqui a experiencia do sacrificio... Ouçam agora: quando leva dinheiro para casa, o velho, zeloso, apalpa-lhe o pescoço, os pulsos, os dedos, a vêr se ella tem joias... A velha acha tudo pouco! Elle préga-lhe moral... desconfia... a outra queixa-se de necessidades... Ella socega a um, promette á outra e volta para os sarcasmos d'esta situação e para as pirracinhas do Feliciano. Senhora baroneza! Isto que eu lhe digo é a verdade. Eu vi.
A baroneza nem pestanejava. Sumira-se-lhe a côr dos beiços. Estava livida.
Argemiro curvou-se todo para o amigo:
—Viste?