—Vi! Um dia fui chamado a levar soccorros espirituaes a um doente. Era a paralytica. Foi junto á sua cadeira de rodas, que o marido me contou toda a historia de D. Alice. Conheciam-me de nome e preferiram-me a outro padre qualquer, exactamente para me fallarem d'ella, e pediram-me que a protegesse! O velho tinha medo; conhecia as tentações do mundo e a fraqueza das mulheres... queria ouvir da minha bocca palavras que o socegassem. Soceguei-o. No dia seguinte voltei, a saber da paralytica; tinha melhorado. Estava eu lá, quando, percebendo os passos de D. Alice, os velhos supplicaram-me que me occultasse. Ella ficaria vexada se me visse alli; occultei-me. Foi do meu esconderijo que assisti á scena de humilhações a que me referi. Não tinham bastado as minhas affirmações; o cego apalpou nervosamente os dedos, os pulsos, as orelhas da moça, á procura da joia compromettedora... A paralytica pediu-lhe goloseimas. Enjoara tudo. Morria de fraqueza...
Agora, senhora baroneza, creio que não preciso dizer mais nada...
O barão levantou-se:
—Luiza, não te parece que devemos pedir perdão a essa senhora?
Mas a mulher não respondeu. Parecia petrificada no seu logar, com os olhos fitos no retrato mudo da filha.
[XXI]
Chegára a hora da prestação de contas. Argemiro escrevia á secretária, quando Alice entrou na sala. Como da primeira vez que se fallaram, ella ficava contra a claridade, encolhida no seu vestido de lã barata, escura, e com o véo descido até ao queixo.
Estava prompta para sahir; esperava ordens...
Argemiro remexeu nos papeis. Abriu um caderninho encarnado, que a moça reconheceu de longe. Era o caderninho dos assentamentos do mez, que ella lhe mandára sommado e com saldo.
Sem saber porque, Argemiro sentia-se embaraçado, e foi com certa timidez que convidou a moça a sentar-se.