Argemiro continuou, depois de sentado:

—Minha sogra tem razão; ella vive como uma abbadessa de convento rico; tem um prestigio por toda aquella redondeza que nem calculas... Muito boa, muito esmoler, é o centro de uma população de pobres e de familias que, se não dependem d'ella materialmente, acostumaram-se á sua tutela moral e não a dispensam. Eu comprehendo-a e dou-lhe razão. Ha ainda outro motivo que a obriga a viver na chacara: é o empenho de ter a neta só para si. Minha mulher, não sei se já te disse, era filha unica e criada com um mimo raro; durante o tempo em que vivi casado tive occasião de conhecer a mãe mais extremosa que jámais vi. Para mim foi de uma bondade e de uma ternura encantadora. Amava-me porque via bem quanto eu fazia a filha feliz... A neta reproduz para ella a filha morta. Gloria foi para casa da avó, muito pequena; foi ella quem a criou, julga-se com todo o direito a guardal-a para sempre... E é para tel-a só para si, nos mesmos logares em que cresceu minha mulher, que teima em não sahir do seu canto...

—E comtigo não se conta?

—Considera-me muito, mas entende, e com razão, que não posso ter Gloria em minha companhia.

—E se te casares?

—Ella sabe bem que isso não acontecerá nunca. Minha sogra herdou o ciume da filha... Sabes que minha mulher me pediu que não me tornasse a casar...

—Todas as mulheres rogam aos maridos a mesma coisa, e afinal... todos os viuvos se casam! Mais depressa que os solteiros, nota.

—Sinto-me bem assim.

—Teu sogro aferra-se tambem por gosto a este sitio?

—Por gosto e por economia. Elle explica melhor a sua predilecção pelo campo, dizendo que, á sombra das suas mangueiras, se sente mais longe da republica...