—Ora! não é tanto assim; o sr. Caldas é capaz de pensar que a nossa Gloria é uma analphabeta!
—Quasi.
—Ora, não digas isso! Ella lê... e escreve... e demonstra muito geito para a musica. Afinal, não se educa para doutora nem para professora. No meu tempo não se exigia tanto...
—Não é razão. A mulher hoje precisa ser instruida, solidamente instruida, mamãe, e eu quero, eu exijo que minha filha o seja.
—Está direito, mas sempre quero saber se o sacrificio do estudo tem compensações verdadeiras! Andar atrás de uma pobre creança o dia inteiro, fazendo-a conjugar verbos e compôr e recompôr orações grammaticaes, atirando-lhe para dentro da cabeça nomes de terras e complicações mathematicas; curvar-lhe a espinha em cima de mappas e linhas geometricas, cançar-lhe a vista antes de tempo, roubando-lhe a liberdade que dá saude, alegria e ousadia, olhem que não me parece obra de amôr nem de caridade! Eu, cá por mim, confesso: fujo da sala do estudo quando vejo meu marido chamar a neta para a lição...
—Eu imagino que elle ha de ser muito rispido... commentou Caldas, sorrindo. Argemiro pegou nas mãos da sogra e disse:
—Mamãe, talvez que a senhora tenha razão; mas a verdade é que a Gloria já chegou a uma edade em que não deve ser tratada como o animalzinho amimado que é. Precisamos preparal-a para o futuro, que é sempre incerto. Imagine que um dia, que infelizmente ha de vir, faltem á nossa Gloria os seus cuidados, os do avôsinho e os meus... que será d'ella, se fôr uma ignorante, ella que é tão impulsiva e... e tão geniosa; hein?
—Quando isso acontecer, para longe o agouro, sua filha estará casada!
—Estará ou não. E se fôr mal casada? Se o marido esbanjar toda a sua fortuna e a atirar depois ás ortigas?
Os olhos da baroneza encheram-se de lagrimas; o velho pigarreou, advertindo o genro que avançara demais no caminho das hypotheses; mas a baroneza reagiu, sorrindo: