—Pois sim, a verdade é que eu conheço mais de uma moça bonita que se daria por feliz se o senhor a escolhesse... Olhe, na festa da apresentação de Sinhá, houve uma que ficou enfeitiçada pelo senhor.

Mãe e filha trocaram um olhar e riram alto. Depois, a Pedrosa continuou:

—É raro o homem que enviuva que se não torne a casar; o que é a melhor prova a favor das mulheres... Ora, o seu coração por que ha de ser mais insensivel que os dos outros? Um segundo casamento é ainda uma homenagem ao primeiro... Só procuramos repetir os actos que nos trazem felicidade...

—Será assim, mas o meu coração é pequeno para as saudades que tenho. Está todo occupado pela minha morta...

Sinhá levou o lenço ao rosto e uma nuvem de Bouton d'or adejou pela feia sala do escriptorio. Argemiro percebeu o movimento e deliciou-se com o aroma. Que significaria aquelle gesto? Colheria o lenço uma lagrima ou disfarçaria um sorriso? Seria elle realmente amado por aquella criança, ou simplesmente preferido por aquellas mulheres como um marido de posição? Deveria ter pena, ou deveria ter nojo?

Ah! a pobre Sinhá talvez não tivesse culpa; quem era odiosa era a mãe, que assim o vinha provocar no logar do seu trabalho arrastando pelos degraus carunchosos d'aquella casa de homens, a sua filha solteira, apenas sahida do collegio! Mas a verdade era que o olhar da pequena perturbava-o, mais pela sua expressão, que pela sua fixidez. Obedeceria ella á suggestão da mãe, ou agiria a mãe em obediencia a uma supplica da filha? Argemiro, apesar de lisonjeado na sua vaidade de homem, começou a desejar a sahida das duas senhoras; mas a Pedrosa não parecia apressada e entrou pela seara da politica, como entrára pela do amor.

Acertou no ponto de fascinação. Ella estava bem informada; Argemiro abriu ouvidos curiosos e dobrou-se na cadeira para escutal-a de mais perto. Ella era indiscreta, por ser com elle... pedia segredo de algumas affirmações, mostrando-se de vez em quando em opposição a actos do marido...

—Pedrosa morre por servil-o em qualquer coisa... veja se inventa um pedido, para contental-o... concluiu ella, levantando-se com um arzinho malicioso nos olhos espertos.

Sinhá imitou-a, quebrada de languidez, como desanimada...

Argemiro observou-a de face; ella baixou os olhos, corando. Estava galante.